Naquele lugar nada crescia ou brotava. Cada torrão de terra, grão de areia, partícula de poeira, recusava qualquer cria que dela pudesse germinar. Não era só o solo. A própria chuva teimava em não cair ali, nem em choroso pranto, qualquer pingo arriscava àquela porção de superfície. Ali não havia as minhocas pra pesca, nem gramado para a pelada de domingo.
Muitas teorias foram atribuídas ao enigmático chão infértil, inerte. "Mataram e esquartejaram alguém e espalharam seus pedaços ali". 'Há algum tempo uma velha decrépita teve as bases de sua casa ali, e o chão é, então, amaldiçoado, desde sua morte'. 'sepulcro de índios'.
Alguns chegavam a ver em sonho baús de ouro desenterrados dali, mas, claro, um devaneio.
Teve é claro, quem procurou adubar o solo, notavelmente seria um bom espaço pra horta de tomates frescos, ou para a sombra de um pessegueiro de tronco robusto marcado com figuras de corações apaixonados.
Adubo, titica de galinha, cascas de maça, sementes, nada teve ali sucesso algum.
"Constrói se algo sobre esse chão da porra!".
Casa de cachorro, de um dia pro outro desaparecia, junto com o cão. Viveiro de pássaros parecia bates assas e voar, em questão de horas sumia inesperadamente.
A intriga crescia. 'Maldito jardim-dos-fundos!'
Os mais benevolentes, insistiam. "Os frutos viram", murmuravam dominicalmente no culto. Nada. Em pouco tempo, estes mesmos, era só o leite derramar e o maldito quintal era praguejado.
Tiveram outros, é claro. Construtores decepcionados, frustrados.
Cautelosos, com seus cadeados nas portas dos fundos, bíblia de cabeceira.
Mestres em jardinagem, inquietos, perplexos, descrentes.
Famílias. Solteiros. Desquitados. Golpistas. Idosos.
E, o 'jardim cruento'.
De início muitos não se importavam, eram pouquíssimos metros quadrados, não havia nada de errado numa terra erodida. Porém, tudo cresce, menos naquele jardim.
A criança que vai mal à escola é por não ter grama pra brincar. O namoro que não aparece é porque não há paisagem que agrade. O cansaço que consome é a falta de uma rede e uma sombra. Os inquilinos que evaporavam eram os frutos do jardim macabro.
Teve, porém, uma adepta de cultos orientais que conclui ter duendes e fadas ali, e levava todo dia verdadeiros banquetes que misteriosamente desapareciam com prato e tudo. Essa também, não durou! Começou a freqüentar cultos evangélicos e logo o pastor lhe enfiou na cabeça haver demônios naquele espaço.
Engraçado, um chão, tão simples, tão encardido, tão...chão!
Mas o locatário não mais pestanejou. A maldição do jardim já era famosa, um basta tinha de ser dado. Levou sua cadeira de descanso, um manta xadrez e fitou as estrelas durante a noite.
Sonhou que o chão lhe cantava uma música, seca, fria, sem refrão. Procurou compreender o que ouvia. Constatou, 'há tanta terra que bota tudo pra fora, toda sua criação, toda sua água, minério, todo seu inço'. Refletiu dormindo, e entendeu que aquele terreiro, só queria ser pura terra, sem verde mato, sem pedra. Simples e puramente, terra. Ficou compassivo. Almejou o espaço sem sombra fria, lama, insetos e bichos, de desnecessária capina. Almejou o sol que ali diariamente batia. Sentiu o sol em sua face. Sentiu a maciez da terra, a porosidade, o cheiro... O gosto!
Abriu os olhos, imóvel, via o sol e nada mais, aos poucos a terra lhe engolia. Respirou terra, comeu terra. Viu a terra.














